sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Brasil está na contramão energética?


EcoD
As fontes de energia renováveis são mesmo a aposta do futuro. O mercado de investimentos na área está tão aquecido que a Bloomberg New Energy Finance revisou as projeções para o setor e chegou a expectativa de um crescimento de 230%. 
Com isso, o investimento anual passaria dos US$ 268,7 bilhões, em 2012, para US$ 630 bilhões por ano em 2030.

Porém, o entusiasmo do mercado com as renováveis não acha eco no governo brasileiro. Embora seja o 10º país do mundo mais atrativo no setor, segundo o Índice de Atratividade de Energias Renováveis, da consultoria Ernst & Young, o Brasil ainda prefere direcionar os investimentos energéticos em projetos como a exploração do pré-sal.

No cenário descrito pelo relatório, a perspectiva é que 70% de todas as novas usinas de geração de energia elétrica serão de fontes renováveis – principalmente solar e eólica, embora o cálculo também considere as grandes hidrelétricas. Apesar da perspectiva positiva, esse crescimento ainda não será suficiente para que as renováveis ultrapassem os combustíveis fósseis em relação às usinas já instaladas, geralmente subsidiadas.

Lançado em novembro de 2012, o relatório O Setor Elétrico Brasileiro e a Sustentabilidade indica que o potencial da energia solar e eólica no Brasil tem sido menosprezado nas políticas públicas do setor energético. 

O documento revelou que, com as tecnologias atuais de energia solar, seria possível atender a 10% da demanda atual de energia elétrica utilizando menos de 5% da área urbanizada do Brasil. No caso da energia eólica, o potencial inexplorado chega a 300 gigawatts (GW), quase três vezes o total da capacidade instalada atualmente no país.

No entanto, não há indicativos de mudança nesse cenário tão cedo. No dia 23 de abril, a presidente Dilma Rousseff afirmou a jornalistas que “não tem milagre”: ou se constrói novas hidrelétricas ou aumenta-se a participação das termelétricas na distribuição de energia. Programas de eficiência energética e redução de demanda ou perspectivas de investimentos em outras fontes renováveis sequer foram citados no discurso.

Marrons


Segundo a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, o desafio do setor é dobrar em dez anos a produção de petróleo e gás natural e as reservas provadas do país, atualmente da ordem de 15 bilhões. A indústria brasileira do petróleo já concentra 63% dos investimentos feitos pelo país no setor energético. Ela afirma que, na próxima década, serão necessários investimentos de cerca de US$ 400 bilhões somente na área de serviços para atender ao setor.

A exploração do pré-sal deve emitir mais de 330 milhões de toneladas de CO2 por ano, quantidade equivalente ao total de emissões da África do Sul. Além disso, há especialistas que acreditam que não seja tão vantojosa assim, uma vez que concorrência no setor petroleiro está mais acirrada com a exploração bem mais barata do gás xisto no Canadá e a provável construção da Keystone XL.

Outras medidas governamentais demonstram que o país ainda não está sintonizado com a necessidade de adoção de uma economia de baixo carbono. É o caso da implantação de medidas como a redução de impostos para automóveis, sem exigir em contrapartida a melhoria da eficiência energética destes. Em agosto do ano passado, a Petrobras chegou a anunciar que iria investir 12% dos US$ 13,5 bilhões destinados à Área de Gás e Energia para expandir sua capacidade de geração termoelétrica.

“Limpas”


Muito embora a energia nuclear esteja em retrocesso em todo mundo devido aos riscos de acidentes radioativos, o Brasil irá investir R$ 850 milhões no setor, que ainda prevê a construção de um reator que produzirá energia limpa para utilização medicinal.

Em meados de abril, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, chegou a declarar que a reativação do programa nuclear brasileiro para fins pacíficos é um dos principais programas da pasta, do qual ele “não abre mão”.

A grande “menina dos olhos” do governo federal na área energética, entretanto, continua sendo as hidrelétricas. De acordo com o Observatório de Investimentos na Amazônia, há 30 usinas hidrelétricas planejadas ou em construção na Amazônia. Além disso, está em discussão a construção de mais 87 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) na Bacia do Alto Paraguai.

Somente no PAC II, estão previstos investimentos da ordem de R$ 94,14 bilhões para construção de hidrelétricas na região – R$ 67,38 bilhões para obras em andamento (Jirau, Santo Antônio, Belo Monte, Santo Antônio do Jari, Colider, Teles Pires, Estreito, Ferreira Gomes) e R$ 26,78 bilhões em novos projetos (São Luiz do Tapajós, Jatobá, São Manoel, Sinop).

Segundo pesquisadores, as pequenas hidrelétricas podem afetar profundamente o sistema hidrológico na América do Sul. A hipótese é que as obras podem ameaçar a conectividade do planalto, onde nasce o Rio Paraguai e seus afluentes, e a planície inundada do Pantanal , por onde as águas desses rios escoam, dificultando o fluxo migratório de peixes e outras espécies aquáticas e semiaquáticas.

Futuro?


Há perspectivas positivas na área energética brasileira, contudo. Os investimentos privados em energia renovável no Brasil cresceram 8% em 2011, saltando para US$ 7 bilhões. Grande parte disso é devido ao vasto potencial da energia eólica, principalmente no Nordeste brasileiro, onde novas avaliações indicam que a força eólica é duas vezes maior que a demonstrada no mapa de vento hoje.

A Bahia lidera os investimentos eólicos no país, com R$6,5 bilhões até 2014 e cinco mil empregos. A tendência é que, até 2020, 10% da energia baiana seja gerada a partir do vento.

No início de abril, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, assinou um termo de cooperação destinando R$3 bilhões para o desenvolvimento de inovações na área energética do país.

O recurso faz parte do Plano Inova Energia, que pretende estimular o setor privado a buscar inovações por meio de quatro linhas: redes inteligentes, que distribuem a energia de maneira mais eficiente; melhoria na transmissão de longa distância em alta tensão; energias alternativas, como a solar e termossolar; e desenvolvimento de dispositivos eficientes para veículos elétricos, que possam contribuir para a redução na emissão de poluentes nas cidades.

A soma ainda é modesta se compararmos aos números envolvidos nos outros setores, mas representa um pontapé inicial em uma área até então menosprezada: a eficiência. De acordo com o engenheiro Walfredo Schindler, coordenador de uma coleção de estudos na área, somente a modernização das hidrelétricas poderiam agregar até 3,2 GW de potência adicionais, “com impacto zero e custo reduzido”, quase a potência média da Usina de Belo Monte (4 GW). “Tal atitude pode garantir uma energia extra a baixo custo e sem nenhum impacto ambiental”, disse.

Segundo estudo da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), cerca de 10% dos 430 terawatt-hora (TWh) consumidos no país a cada ano são desperdiçados, volume superior ao consumido pelo total da população do estado do Rio de Janeiro, que alcança cerca de 36 TWh.

(EcoD)

Via: www.mercadoetico.terra.com.br